O Brasil, cada vez mais, chama a atenção de investidores em todo o mundo. O vigor de seu mercado interno e o desempenho da economia em um ano de crise mundial atraíram de vez os olhares para as oportunidades oferecidas pelo País. Para que este cenário positivo continue no horizonte, porém, o Brasil ainda tem um dever de casa que precisa ser feito e não pode ficar de fora da agenda do próximo governante.
Chegamos com uma boa perspectiva a 2010 porque a administração do Banco Central soube aproveitar o momento para seguir o caminho adequado: acumular reservas e resgatar dívida, disse o economista José Júlio Senna, ex-diretor do Banco Central, hoje sócio da MCM Consultores. Para ele, o volume de reservas acumuladas nos últimos anos colocou o Brasil em uma situação privilegiada. Nem tudo, porém, é acerto. Pelo lado fiscal, precisamos ter comportamento mais austero. O ritmo dos gastos correntes é forte, mas com investimentos não segue o mesmo ritmo, e o País precisa de investimento. Esse é um problema sério.
Para o ex-diretor do BC, a questão fiscal do Brasil só não está chamando atenção do restante do mundo porque há países com problemas maiores neste momento, como Portugal e Espanha. Temos uma carga tributária alta e precisamos de menos impostos e mais investimentos. Este é um aspecto capaz de fazer com que o Brasil perca importância no cenário mundial. Para Senna, o País precisa manter um crescimento acentuado se quiser continuar atraindo capitais. Para isso, precisamos de reformas. A principal é fazer a reforma do Estado, revendo os gastos públicos. A reboque virá a reforma tributária, disse ele. Esta gastança mal planejada do Estado faz com que na China o volume de investimentos corresponda a 40% do PIB, enquanto no Brasil fica entre 17% e 18%. No Brasil, o Estado precisa ser forte, mas não tem que ser inchado.
É o que pensa também o economista Fabio Kanczuk, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). Para que o País cresça 5% ao ano entre 2011 e 2015, diz Kanczuk, será preciso ter um Estado menor, reduzindo especialmente os gastos com custeio e com a Previdência. O governo gasta muito e não tem dinheiro para fazer investimentos. Só com a Previdência, o gasto corresponde a 7% do PIB. Precisamos diminuir a carga tributária, reclamou. Para ele, outro gargalo sério está na formação da mão de obra brasileira. Educação é o que garante crescimento em 50 anos.
Para Samuel de Abreu Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE-FGV), o mais importante para o Brasil continuar atraindo os investidores é manter a trajetória de desenvolvimento institucional iniciado no governo Fernando Henrique Cardoso. Precisamos continuar respeitando os contratos, com um Judiciário mais flexível e com a economia mais democrática. Manter o caminho da responsabilidade fiscal, com o esforço para reduzir a relação dívida/PIB, manter a independência do BC, o câmbio flutuante, a política econômica, tomando cuidado com a atração de capital, especialmente aquele que entra na forma de dívida.
O economista aconselha o governo a desestimular as empresas a contraírem empréstimos em dólar, prerrogativa que deveria ser exclusiva das exportadoras. Não é difícil. Basta deixar claro que não haverá hedge cambial. Se os administradores apostarem errado, a empresa vai quebrar, disse. Em economia não tem mágica: é fazer mais do mesmo. É como se preparar para uma profissão: requer estudo sistemático. É um processo lento, que precisa de consistência e persistência.